O SAUDOSO SALDANHA II Marcelo Dessaune era um papo fácil. Gostava de conversar sobre tudo e nunca tinha pressa de encerrar o assunto. Como presidente, acredito o último, do Saldanha da Gama, tentou por diversas vezes reerguer o clube, coisa que mais tarde ficou comprovado, ninguém conseguiu. Mas, Marcelo, além de gostar de um bom papo, também era bom de cerveja e diante dos novos ventos que sopravam nas reuniões, teve que arranjar uma maneira de não sacrificar seu prazer de fim de tarde. Foi quando teve a idéia de colocar sua mesa num cantinho, separada dos demais. Assim, participava da reunião ao mesmo tempo em que degustava sua cervejinha. Jeitinho brasileiro.
Tivemos, durante muitos anos, reuniões memoráveis no Saldanha. Não houve um único problema envolvendo a classe que não passou por discussões demoradas e detalhadas por esse grupo, junto a outros colegas que foram chegando e enriquecendo o debate. Foi assim na aprovação do atual regimento de custas do ES, que pela primeira vez em nossa história nos permitiu cobrar um valor digno pelos nossos serviços. Foi luta travada na Assembléia Legislativa do Estado, com direito a virada de mesa, quando um deputado, que não vale a pena citar o nome, resolveu cortar pela metade nossos emolumentos. Da mesma forma, durante a Constituinte Estadual de 89, tivemos esforço redobrado para aprovar as Leis que beneficiam nossa classe até os dias de hoje, além de não deixar passar as que nos prejudicassem. Quando a malfadada Lei Fernando Henrique - gratuidade universal dos registros de nascimentos e óbitos - , passou, foi lá a primeira reunião para angariar fundos necessários a constituição de um advogado para defender a classe.
E assim foi, até novos tempos chegarem, e o Saldanha ser substituído por outros lugares, talvez mais apropriados. Aquela época foi de uma beleza única, romântica até, mas o romantismo/coleguismo teve que dar lugar ao pragmatismo/profissionalismo por uma contingência da história. Era profissionalizar ou morrer. E isso, modéstia a parte, a classe soube fazer muito bem. Estamos mais vivos que nunca. Mas é sempre muito bom lembrar daquelas saudosas noites no Saldanha!
Dudu Morandi
dumorandi@intercol.com.br
Boletim: Informativo Eletrônico nº 25 - Novembro/2003
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