“Dizem que nós não somos civilizados. Os índios são civilizados, mas não com a civilização dos brancos. Temos o jeito de ser de cada povo. Hoje nós olhamos, quando chegamos numa cidade, muita gente que se diz civilizada, mas que maltrata seu semelhante, que deixa suas crianças pedindo esmola, passando dificuldades.
Você entra nos órgãos públicos, vê tanto luxo, depois, lá fora, vê gente passando fome, gente igual, só que pobre. Então, o medo que nos temos de perder nossas terras é de ver nosso povo realmente na rua, dormindo debaixo de viaduto, caído em marquises, mendigando. Porque essa não é nossa maneira de ser civilizado. Nós somos de um pensamento diferenciado, não ensinamos nossos filhos a competir, ensinamos a repartir e a lutar. Nós não deixamos nosso povo sofrer.
Como vocês podem ver suas crianças na rua? Como podem ver famílias sem ter o que comer? Revirando lixo? Nós não deixamos. Nós temos alegria em repartir. Se uma família tem pra comer e chega outros que não tem, ela faz alimento suficiente para todos. Nós não temos coragem de deixar um parente sair com fome, se temos comida guardada. A gente come junto, depois se pega com Deus e vai, com certeza, adquirir. Por isso também, se temos a nossa terra demarcada e na nossa mão, temos condições de adquirir nosso alimento e de repartir entre nós. Nós não temos cadeia nas nossas aldeias, temos conselho a dar ao nosso povo e eles acatam. Nós procuramos educar nossos filhos pra acatar os conselhos dos mais velhos. A sociedade branca tem que entender e respeitar o nosso modo de viver. Nós não estamos lutando contra eles, somos também parte dessa sociedade, só que com nossas diferenças”.